Cerimônia hindu com bebê elefante na Tailândia ficou na promessa: advogado conta como foi vítima da Outsider Tours
Após a prisão de Fernando Sampaio de Souza e Silva, de 36 anos, acusado de estelionato por não entregar serviços contratados por clientes da Outsider Tours — agência especializada em turismo esportivo da qual é dono —, a sensação entre as vítimas é de que a Justiça começa, enfim, a ser feita. A maioria dos casos envolve pacotes para grandes eventos esportivos, como finais da Libertadores e da Champions League. Um dos episódios mais emblemáticos, no entanto, vai além dos estádios e envolve a organização de um casamento na Tailândia.
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O advogado Daniel Blanck contratou a empresa para cuidar de todos os detalhes de sua cerimônia, marcada para 2019. Ao longo de um ano, a Outsider ficou responsável pela organização do evento e pelos serviços de viagem dos cerca de 50 convidados, incluindo passagens aéreas e hospedagens.
Entre as promessas feitas estavam uma cerimônia hindu, decoração com flores típicas e até a presença de um bebê elefante. Nada disso, porém, se concretizou. As frustrações começaram logo na chegada ao país asiático.
— Foi quase um ano de planejamento e, quando cheguei à Tailândia, nada do que eu tinha contratado existia. As flores que ele prometeu não existiam na região, o elefante não existia. Além disso, quando as pessoas chegavam aos hotéis, as reservas eram falsas, os vouchers eram falsos. Ele simplesmente falsificou documentos, e muitos convidados tiveram de pagar tudo de novo — relata Blanck.
Em meio às expectativas frustradas, o advogado ainda descobriu que seu cartão de crédito havia sido utilizado por Fernando dias antes, em Lima, no Peru, durante a final da Libertadores entre Flamengo e River Plate. As despesas somavam R$ 80 mil.
— Meu cartão tinha R$ 80 mil em gastos que eu não reconhecia, feitos em Lima, enquanto eu estava na Tailândia. Quando o confrontei, descobri que ele estava usando meu cartão para cobrir prejuízos de clientes no Peru. Ele havia vendido mais pacotes do que conseguia entregar e passou a pagar esses buracos com o meu cartão — conta.
O confronto ocorreu pessoalmente, já que Fernando seguiu para a Tailândia após sair de Lima. Segundo Blanck, o prejuízo total chegou a R$ 200 mil. Diante da ameaça de denúncia por estelionato, o empresário propôs um acordo, que previa a devolução dos valores e a entrega de um voucher para um hotel em Punta Cana, na República Dominicana.
— Ele confessou que me causou prejuízo e devolveu cerca de 90% do valor. Mas, quando cheguei a Punta Cana, o voucher também era falso. Mais uma vez, ele falsificou o documento — afirma.
Blanck relata que, na maioria das vezes, Fernando atribuía os problemas a terceiros. A única situação em que assumiu responsabilidade foi o uso indevido do cartão de crédito. Ao ser informado de que o caso seria levado à delegacia, o empresário pediu “um último voto de confiança”.
“Eu fui um lixo incompetente e inconsequente. Mas não quis roubar. Te imploro”, escreveu Fernando a Blanck, em mensagem enviada pelo WhatsApp. Hoje, o prejuízo final do advogado gira em torno de R$ 12 mil.
Mensagens enviadas por Fernando Sampaio à Daniel Blanck
Arquivo pessoal / Daniel Blanck
Pirâmide de prejuízos
Além do próprio processo, Daniel Blanck representa outras 11 pessoas lesadas pela Outsider Tours. Segundo ele, todas as ações judiciais tiveram decisão favorável às vítimas, mas a Justiça não conseguiu localizar bens ou valores em nome do empresário.
— Hoje ele deve entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões, responde a cerca de 650 processos judiciais e tem ao menos 50 representações em delegacias. As polícias do Rio e de São Paulo já tinham elementos suficientes para pedir a prisão preventiva — afirma.
Blanck estima que Fernando arrecadava cerca de R$ 7 milhões a cada grande evento esportivo. Para evitar enquadramento por estelionato, a empresa entregava apenas parte do que era prometido.
— É uma pirâmide. Ele usa dinheiro novo para cobrir prejuízos antigos, sabendo que não vai cumprir tudo. Entrega sempre alguma parte do pacote para não caracterizar estelionato. Agora, ao cancelar 100% dos pacotes sem devolver o dinheiro, acabou enquadrado no crime — explica.
Sobre a prisão de Fernando Sampaio, o advogado diz aguardar a audiência de custódia, mas demonstra pouco otimismo em relação à reparação financeira das vítimas.
— A gente precisa acreditar na Justiça. Se a prisão for mantida, ela será feita não só para mim, mas para todos os enganados. Ao mesmo tempo, é quase uma certeza de que nenhuma das milhares de vítimas vai receber o dinheiro de volta. A empresa não opera mais e não há bens de onde tirar recursos — lamenta.
Preso por estelionato
Fernando Sampaio de Souza e Silva, de 36 anos, preso por estelionato nesta terça-feira em Balneário Camboriú (SC), é dono da empresa Outsider Tours, agência especializada em turismo esportivo acusada de não entregar os serviços contratados. Segundo a delegada Luana Backes da Divisão de Investigação Criminal, o empresário é investigado por crimes em diferentes estados do país.
— Fernando seria responsável por empresas de turismo que vendiam pacotes esportivos para eventos nacionais e internacionais, mas não entregavam os serviços contratados. Há registros de procedimentos policiais contra ele nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Pará— , explicou em vídeo enviado ao O GLOBO.
Desde 2022, a Outsider Tours, empresa carioca de turismo esportivo, acumula reclamações por não entregar serviços contratados, incluindo pacotes para a final da Libertadores em Guayaquil, com falta de assentos em voos. Naquele ano, o Flamengo denunciou o uso indevido de sua marca pela empresa e anunciou que buscaria reparação judicial. Problemas semelhantes se repetiram na final da Champions League de 2024, quando clientes relataram não receber ingressos até a hora do jogo.
Em 2025, o dono da empresa, Fernando Sampaio de Souza e Silva, foi indiciado duas vezes por estelionato pela Polícia Civil do Rio, embora negue ter sido intimado e afirme que os casos são pontuais. Entre as vítimas está o ator Márcio Garcia, que afirma ter pago R$ 17,2 mil por um pacote para o Mundial de Clubes nos EUA e descobriu no dia da viagem que não havia passagens emitidas. O caso é investigado pela 16ª DP.
Há ainda outras apurações em andamento no Rio e em São Paulo, incluindo um prejuízo de R$ 1,2 milhão a uma empresa paulista e uma ação cível de R$ 5,9 milhões movida por uma agência da Bahia. Fernando, considerado foragido, foi localizado em Balneário Camboriú, onde passava férias com a família.