Luto climático: Como continuar quando o futuro parece perdido?
Você entra em desespero ao ver as notícias ambientais? toda hora pensa “a gente vai m0rrer!”? Está apenas esperando o fim do mundo? Você pode estar passando por um **Luto Climático/Ambiental/Ecológico**.
Eu não sou da área de saúde mental. Venho aqui compartilhar um pouco do que tenho pensado com base na minha experiência de 20 anos em movimento ambientalista e no que vejo acontecendo nos grupos em que atuo e nas redes sociais. **Se o seu sofrimento estiver te paralisando, não deixe de buscar ajuda com profissionais**.
Essa ideia de luto climático é relativamente nova. A primeira vez que foi citado o termo “luto ecológico” foi por volta de 1940, num texto de Aldo Leopold. Ainda temos pouco entendimento e pesquisas sobre o assunto e as definições ainda estão emergindo. Acho possível que daqui alguns anos seja até outro nome.
O luto que estamos acostumados a ver é sobre quando perdemos uma pessoa amada de forma irreparável, em geral pela morte dela. Para ilustrar o luto ambiental vou apresentar alguns exemplos.
**Perda da Natureza**
Ter que lidar com a perda de um espaço da Natureza ou de uma espécie por um evento extremo ou crônico. Pode ser qdo sentimos falta de uma espécie que antes sempre esteve presente, pode ser por um incêndio que devasta uma floresta, ou por uma barragem de mineração que destruiu um rio
**Perda da identidade cultural**
Pessoas que perdem seus espaços ou precisam migrar por conta de alterações ambientais podem ter que lidar com questionamentos sobre sua identidade pessoal e cultural. O documentário “Rio de Lágrimas” da Saskia Sá mais sobre essa forma de luta nas comunidades do Rio Doce, impactadas pela barragem da Samarco que ruiu.
**Ecoansiedade**
A preocupação intensa e paralisante em relação ao futuro é outro sinal desse luto. Pode ser chamado de ecoansiedade também. Jovens do mundo inteiro tem lidado com isso. Um editorial da Lancet de 2021 trouxe os dados de que 67% de jovens entre 18 e 23 anos lidam com ecoansiedade. As pesquisas recentes falam que diferentes grupos são afetados de forma diferente. É fácil de imaginar que um jovem periférico ou um indígena que perdeu a roça por falta de chuva, tenham muito mais preocupação que uma pessoa classe média alta que tenha condições pra mudar de cidade ou país.
## As 5 fases do Luto Climático
Como eu faria a analogia com as 5 fases do luto climático?
_(Lembrando que isso é só um ensaio de ideias, não é receita/orientação psicológica. Busquem profissionais da saúde mental caso precisem.)_
**1. Negação**
A dificuldade de aceitar que a situação tá ruim, duvidar das notícias, achar que estão exagerando. Nesse estágio teorias da conspiração e negacionismo ficam mais atraentes.
**2. Raiva**
Dos cientistas que não falaram antes (mas falaram), do governo que não fez o que deveria, às vezes de si mesma/o que não tinha reserva financeira pra lidar com a emergência ou se preparado melhor. Raiva de ter nascido nessa época e ter um futuro assustador pela frente.
Em geral, as pessoas que estão no estágio da raiva, querem gritar o tempo todo “Olhe só essa desgraça”, “façam alguma coisa”. Soluções simplistas podem parecer extremamente atraentes. Não querem lidar com a sua dor e podem exagerar com ações não pensadas.
**3. Negociação**
Depois do desgaste/burnout resultado da fase de Raiva, a pessoa começa a buscar soluções ao alcance dela. Seja cortar consumo de carne, começar a engajar numa organização, ir atrás dos políticos.
Nessa fase o greenwashing e o tecnofix (soluções tech para o clima) fica mais interessantes: “oras, é só fazer uma máquina de tirar carbono” (_pena que não é tão fácil assim_), “tenho certeza que vamos criar algo que vai resolver”, “vamos colocar espelhos na atmosfera” (_socorro, tenho pavor disso_). A parte difícil disso de quem se apega ao tecnofix é que as tecnologias não estão prontas e as pessoas podem ficar esperando ver os resultados que não vão chegar a tempo. A ação deve ser agora.
**4. Depressão**
Essa é uma fase difícil. Ela acontece porque a pessoa:
* perdeu a ilusão sobre o greenwash
* viu que aquele technofix não é mais tão promissor
* a política ambiental tá emperrada e continua dando quase nenhum resultado
* viu que só ela cortou carne do prato e o resto do mundo continua igual
* viu que o coletivo implodiu em tretas e não conseguiu fazer nem um décimo do que queriam
Essa fase a pessoa tá mais vulnerável a ser picada pelo bicho do doomismo (acreditar que não há mais nada a ser feito) ou falar que o problema é o ser humano. É muito difícil ver nossos esforços não darem resultado, ver que você mudou sua vida e ainda há tanto por fazer, que falta gente na luta, que tem gente lutando contra…
Nessa hora é importante se dar um espaço, buscar uma profissional da saúde mental ou grupos de apoio onde você possa ser acolhida/o em relação disso (não conheço grupos que oferecem isso, espero que esses espaço surjam de forma responsável).
**5. Aceitação**
Essa poderia ser a fase final. Aqui você já entendeu mais sobre a complexidade do problema, mais sobre os limites das soluções individuais e tecnológicas, mais sobre a dificuldade de tentar mudar o mundo.
Mas mesmo assim você entende que é esse mundo que temos. O único que conhecemos que tem cerveja, chocolate, florestas, praias (onde podemos nadar). O único onde temos dança, telenovela, quadrinhos, nossos amigos e amores. O único onde podemos viver.
Que nesse mundo tem muita gente que sofrerá caso a gente não aja, e o mais triste é que são as pessoas que contribuíram muito pouco pra situação atual. Você entende que você tem um papel pra que a justiça climática seja real.
Você entende que temos uma luta. Longa, árdua, cheia de obstáculos, mas junto de pessoas incríveis, que valerá cada minuto que você puder lutar junto com elas por um mundo que pode se tornar real.
Essas fases podem ser entendidas como um ciclo e que podemos voltar a reviver essas fases e a ordem pode até mudar. Falo sobre luto ecológico porque acho que nomear as coisas pode nos ajudar a entendê-las. Não para adotar como um rótulo e por na bio do seu perfil, mas para gente entender que são processos e não destinos nossos.
* * *
**Quer mais conteúdo assim?**
Se você gostou e quiser receber notificações por email de próximas postagens aqui no blog, se inscreva aqui:
Newsletter
**Que tal contribuir? ☕**
Se você gostaria de me pagar um cafezinho, você pode me mandar um trocado (qualquer valor) por PIX ou PayPal.
Como apoiar?
### Compartilhe isso:
* Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
* Mais
*
* Email a link to a friend(abre em nova janela) E-mail
* Compartilhar no Bluesky(abre em nova janela) Bluesky
* Compartilhe no Linkedin(abre em nova janela) LinkedIn
* Share on Threads(abre em nova janela) Threads
* Compartilhar no WhatsApp(abre em nova janela) WhatsApp
* Compartilhar no Telegram(abre em nova janela) Telegram
*
Curtir Carregando...
### _Relacionado_