Herdeiros revelam causa da morte de Oscar Maroni e fazem "rebranding" de famoso bordel Bahamas do empresário: "Balada mais sem vergonha"
Nos últimos cinco anos, o empresário Oscar Maroni, morto em dezembro aos 74, havia se tornado ainda mais teimoso e centralizador à frente do Bahamas Hotel Club, negócio erguido por ele na década de 90 em São Paulo. No passado, o endereço já o colocara em problemas, como a prisão sob acusação de exploração de prostituição e longas batalhas judiciais. Os filhos não entendiam bem a mudança de comportamento. Uma simples proposta de reparo no salão o irritava. As reuniões eram inconclusivas. Maroni parecia perder o fio da meada. Em outros momentos, tomava decisões ainda mais impulsivas do que o costume. Ninguém parecia disposto a questionar a autoridade do “rei da noite” - até Maroni sofrer uma queda e, depois, retirar um coágulo do cérebro, em 2023. No pós-operatório, os filhos o convenciam a passar por exames com a desculpa de consultas ortopédicas. Aos poucos, Maroni deixou de questionar sobre o Bahamas, a sua maior obsessão na vida. No lugar, perguntava da ex-esposa, com quem teve quatro filhos: “Ela não vem me visitar?”. Mas Marisa Vaccari havia morrido vítima de um câncer em 2022. Os dois se separaram quando os filhos ainda entravam na adolescência. Causa da morte Em 2022, Maroni recebeu tratamento contra um câncer de próstata, mas, em novembro de 2025, descobriu-se uma metástase, que provocou a falência múltipla de órgãos e sua morte, no dia 31 de dezembro de 2025. Até agora, a causa não havia sido divulgada. Os médicos acreditavam que os problemas neurológicos eram causados pelo Alzheimer. À GQ Brasil, um dos herdeiros de Maroni, Aratã Maroni, 38, revelou que o pai, na verdade, teve um quadro de DFT, ou Demência Frontotemporal, que atinge os lóbulos frontais do cérebro. “Essas regiões estão ligadas ao comportamento social, ao controle das emoções e à linguagem”, explica o neurologista Fabiano Ferreira de Abrantes, médico da Rede D’Or, consultado pela GQ e sem relação com o caso. Leia mais na GQ Brasil Segundo o especialista, enquanto o Alzheimer provoca esquecimento de lembranças recentes, essa perda de memória não é uma regra do DFT. Não é possível detectá-la com apenas um sintoma. O diagnóstico se dá a partir de exames de imagem cerebrais e acompanhamento clínico. A causa mais provável é genética, mas Abrantes afirma que até hoje a ciência não mapeou um agente específico para ser combatido no organismo. Por isso, não há cura. O tratamento envolve antidepressivos e antipsicóticos para frear os sintomas. "Vê-se dificuldade para realizar tarefas complexas, apatia, perda de empatia, desinibição e adoção de comportamentos repetitivos e compulsivos”, acrescenta o especialista. A DFT também pode afetar a linguagem, causar erros gramaticais e fazer o paciente esquecer o significado das palavras. “Ele sabia quem a gente era, mas se confundia. Me chamava de Eros, que é o nome do meu tio, mas sabia que estava falando comigo”, lembra Aratã. Após o agravamento da doença, Maroni se hospedou em uma casa de repouso, em São Paulo, mas, em meados de 2023, o tratamento continuou na fazenda de 1.300 hectares da família em Araçatuba, onde os Maroni criam gado e cultivam soja, cana e milho. Maroni em frente ao Bahamas Hotel Club, em 2017; aos fundos, o hotel embargado e jamais inaugurado do "rei da noite" Reprodução/YouTube Rebranding do Bahamas Os filhos já haviam assumido a administração do Bahamas na ausência do pai. O prédio construído em Moema - bairro com aparência tranquila onde se concentra uma das principais rotas do sexo liberal de alto padrão em São Paulo - hoje é gerido pelo filho Aratã, responsável por ampliar a marca Bahamas, após os herdeiros dividirem a responsabilidade dos negócios do pai. Para isso, ele pretende realizar um rebranding, uma repaginada na marca. A primeira medida foi investir em uma hamburgueria, a Bahamas Burguer, inaugurada em dezembro, com opções como “Ménage à trois”, “Noite picante” e “Pós-balada”. Os próximos investimentos serão em uma gastronomia mais requintada no andar superior e uma balada “mais sem vergonha”, nas palavras dele, no subsolo do Bahamas. A inspiração vem de Hugh Hefner, magnata criador da revista Playboy, famosa pelo coelhinho. A ideia é manter a marca atrelada à sexualidade, mas como símbolo de lifestyle, incluindo aí a venda de souvenirs. “Minha ideia é que o marido possa comprar uma lingerie com o [logo] do coqueirinho para a esposa sem deixá-la brava”, diz Aratã. Aratã (foto) assumiu a ponta de marketing do clube, onde há uma estante para charutos ao lado do bar Claudio Gatti/Divulgação O Bahamas é um prédio com 22 suítes, das mais enxutas às mais amplas nos andares superiores. Maroni era obcecado por mármore e mandou revestir todo o piso com a rocha. No salão de entrada, há mesas, um lago artificial para carpas, um piano, um bar com um garçom de gravata borboleta e assentos reservados que servem como camarotes. Na parede, fica um alerta que proíbe qualquer fotografia nas dependências da casa. A localização é estratégica: próxima ao aeroporto de Congonhas, onde durante o dia é possível sentir o tremor dos aviões que decolam e aterrissam - o que, na interpretação do negócio, facilitava a chegada de executivos e turistas a passeio com grana para pagar por um programa. Aratã explica que o pai desconhecia os termos de marketing, mas sabia fazer publicidade do negócio. “Não sei exatamente como o coqueirinho foi criado, mas ele brincava: no coqueiro, você pode trepar à vontade que não dá galho”, ri. Acauã Maroni (à esq.) será responsável pela parte financeira do Bahamas; Aratã (à dir.), pelo marketing e implementações na casa Claudio Gatti/Divulgação A contabilidade do dia a dia ainda se fazia à moda antiga. “Pelo meu pai, até hoje o Bahamas teria uma comandazinha de mão [para anotar os pedidos]”, afirma. Segundo ele, o sistema nem sempre contabilizava quantas bebidas eram servidas, causando problemas no estoque, e havia até episódios como subornos pagos por clientes a funcionários para entrar com valor mais barato. O filho diz ter informatizado o processo, até mesmo para aliviar a própria agenda. “Meu pai queria ficar a noite toda aqui cuidando. Eu, não”, diz. “Sou apaixonado por dashboards.” O pai só permitiu Aratã entrar no Bahamas após os 18 anos. Antes, restringia-o a trabalhar como office boy do escritório dos Maroni. Praticante de jiu-jitsu, ele ajudou o pai a organizar um torneio de luta em São Paulo nos anos 2000, quando conheceu o boxeador Mike Tyson e treinou com Wanderley Silva. É pai de duas meninas e afirma levá-las à escola todos os dias. De Maroni, herdou o gosto por motos, cavalos e armas. Os filhos deixaram a Harley Davidson no salão do clube como homenagem e Aratã pratica tiro esportivo. (Em 2008, Maroni foi inocentado da acusação de posse ilegal de arma de fogo restrito. À época, a polícia apreendeu uma pistola Walther, calibre 9 milímetros, guardada em um cofre da boate. Maroni foi preso, mas a Justiça considerou que a arma não era potente suficiente para ser considerada de uso restrito, ou seja, apenas para militares). A família sabia bem da natureza do negócio. “Ele falava de sexo tempo inteiro, mas naturalmente. Sexo é só sexo - e acho que esse foi o melhor conselho que ele me deu”, afirma. “Nunca fomos uma família maluca”, acrescenta. Maroni começou no ramo quando, dizia, por recomendações médicas, visitou uma casa de massagem nos anos 70 e viu que havia solo fértil para prosperar com negócio similar na capital. “Só que o trabalho dele era um puteiro, só isso.” A prostituição não é crime no Brasil, mas a exploração é. O rufianismo, a popular cafetinagem, pode rende prisão de até quatro anos e multa. Assim, Maroni sempre operou sob o modelo don’t ask, don’t tell. Segundo o filho, as garotas e os frequentadores pagam a entrada e um eventual programa é negociado diretamente entre as partes. De quarta a domingo, um cliente paga R$ 400 (consumíveis) para entrar. Aratã - irmão de Aruã, Acauã e da única mulher do quarteto, a chef Aritana, todos com nomes inspirados em uma antiga novela da TV Tupi dos anos 70 - esclarece que o modelo deu “segurança jurídica” ao pai. “Eu não vendo sexo. Quem vende isso é ela. Eu ganho na entrada, na suíte e no bar”, pontua. Na prática, esse arranjo nem sempre funcionou. Em agosto de 2007, Maroni afirmou a uma emissora que o Bahamas era “sim, uma casa de prostituição de luxo, sim. Não vamos ser hipócritas, não vamos ser falsos”. Pressionado, distribuiu pizza para a imprensa acumulada na porta da boate com um bilhete escrito “estou de saco cheio” e provocação aos agentes municipais. Não pegou bem. Como resposta, a prefeitura comandada por Gilberto Kassab lacrou a boate e três dias após a declaração à rede de televisão, o empresário acabou preso pela Polícia Civil por exploração à prostituição, formação de quadrilha e tráfico nacional de humanos. Ficou preso durante 50 dias. Depois, pôde responder o processo em liberdade. Na saída, vestindo um terno risca de giz Armani, anunciou em coletiva de imprensa a própria candidatura à prefeitura de São Paulo, o que não aconteceu. Em 2011, foi condenado a onze anos de prisão. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal e a absolvição só aconteceu em 2013, sob protestos do Ministério Público de São Paulo. Ao lado da boate, Maroni também havia construído o hotel Oscar’s Hotel, embargado na Justiça desde 2007. O prédio, praticamente pronto, com 223 suítes equipadas com janelas antirruído, salões para eventos e também assentado em mármore, recebeu ordem de demolição devido à proximidade com o aeroporto de Congonhas - os aviões passavam a cerca de 30 metros do ponto mais alto da torre. À época, Congonhas havia sido recentemente palco do acidente do voo 3054 da Tam, a maior tragédia da história da aviação brasileira, com 199 vítimas, após a aeronave sair da pista e bater contra um prédio. Durante o processo, o hotel também foi investigado sob suspeita de suborno a um agente da Aeronáutica para ser autorizado. Os Maroni entraram com recursos para evitar a demolição, com processo ainda correndo na Justiça. Hoje, o edifício chama atenção pelas pichações na fachada. O Bahamas ficou lacrado por seis anos e só foi reaberto em 2013. No ano seguinte, Maroni participou do reality "A Fazenda", mas acabou eliminado na primeira semana. Em 2018, candidatou-se a deputado federal com o número 90, do partido Pros, e com o final “69”. Com patrimônio declarado de R$ 13 milhões, investiu cerca de R$ 2 milhões na campanha, mas recebeu apenas 9 mil votos e não foi eleito. Defensor do agro, ainda teve a fazenda no interior de São Paulo ocupada pelo MST. Passagem de bastão Em 2023, já debilitado pela doença, passou o bastão em definitivo para os filhos com uma festa para celebrar os 30 anos de Bahamas, com um investimento de R$ 2 milhões para ampliações. A data escolhida foi o dia 6 de setembro, ou 6/9. A mudança de poder era um dos sinais do avanço da doença. Antes dela, Maroni era resistente à troca de comando, e comandas. “Você cria uma empresa como um filho, para fazê-la crescer e depender cada vez menos de você. Mas muitas pessoas não conseguem tirar o ego da frente. Muitas pessoas não conseguem. Meu pai não conseguia. Era muito centralizador”, diz Aratã. Os irmãos - que, hoje, assinam como “os Maroni “- se preparavam para o Ano Novo quando receberam o telefonema sobre a morte do pai. “Não foi um baque. Era uma coisa que trabalhava psicologicamente havia um tempo. Não foi dia para a noite. Mas minha mãe morreu em 2022 e digo que o sentimento de perda não vai embora. Você só se acostuma com ele”, lamenta. O corpo foi cremado no crematório da Vila Alpina, zona leste de São Paulo. Segundo o filho, as casas concorrentes do Bahamas Club, como a Scandallo, na região do Ipiranga, enviaram coroas de flores. Para este ano, Aratã visualiza a continuidade do negócio, desta vez em busca de um “público mais amplo”, afastado das polêmicas do passado, mas mantendo o DNA criado pelo. “O puteiro no Brasil é uma instituição social”. Imagem de despedida do Bahamas Hotel Club para seu fundador, Oscar Maroni (foto) Reprodução