Ao perdoar traficante de drogas enquanto ameaça a Venezuela, Trump escancara suas contradições
O presidente Donald Trump e seus principais assessores afirmaram que os cartéis de drogas representam um dos maiores perigos para os Estados Unidos e prometeram erradicá-los do Ocidente. Como parte desse esforço, Trump sinalizou no sábado que estava intensificando sua campanha contra esses cartéis, afirmando em uma publicação nas redes sociais que o espaço aéreo sobre e ao redor da Venezuela deveria ser considerado "TOTALMENTE FECHADO".
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Menos de 24 horas antes, o republicano havia anunciado nas redes sociais que concederia indulto total ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, condenado nos EUA por tráfico de drogas, em uma decisão vista como uma grande vitória para as autoridades em um caso contra um ex-chefe de Estado. O indulto ainda não foi oficialmente concedido.
As duas publicações revelaram uma dissonância notável na estratégia do presidente, que buscava intensificar a campanha militar contra o narcotráfico enquanto ordenava a libertação de um homem que, segundo os promotores, aceitava "subornos provenientes do tráfico de cocaína" e "protegia as drogas com todo o poder e força do Estado — militares, policiais e judiciário". De fato, os promotores afirmaram que Hernández, durante anos, permitiu que pacotes de cocaína da Venezuela passassem por Honduras a caminho dos EUA.
O senador Tim Kaine, democrata da Virgínia, classificou o indulto como "inaceitável" e disse que as ações de Trump eram mais uma prova da "falsa narrativa" em torno de sua estratégia no combate às drogas.
— Isso mina completamente a alegação do governo de que realmente se importa com o narcotráfico, e levanta a questão do que realmente está acontecendo com a operação na Venezuela — disse ele.
Justificativas conflitantes
O governo Trump tem tido dificuldades em apresentar uma justificativa estratégica clara para o acúmulo de uma presença militar tão grande no Caribe. O presidente tem apontado, na maioria das vezes, para operações de combate ao narcotráfico, mas o tamanho das forças americanas na região sugere ambições maiores. Em conversas privadas, Trump demonstrou interesse nas reservas de petróleo da Venezuela, enquanto ele e seus assessores também afirmaram querer depor o presidente Nicolás Maduro.
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Em um comunicado, Trump disse que concedeu o indulto a Hernández porque "muitos amigos" lhe pediram, acrescentando: "Deram a ele 45 anos porque ele era o presidente do país — você poderia fazer isso com qualquer presidente, em qualquer país". (Após deixar o cargo, Trump foi condenado por 34 crimes de falsificação de documentos comerciais, relacionados ao reembolso do pagamento feito à atriz pornô Stormy Daniels para encobrir um escândalo sexual durante as eleições presidenciais de 2016.)
"Ao reforçar a segurança da fronteira e combater narcoterroristas que traficam drogas para matar americanos, o presidente, sem dúvida, fez mais do que qualquer outro para enfrentar o flagelo das mortes por drogas ilícitas", disse Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, em um comunicado.
Nas últimas semanas, altos funcionários deixaram claro que o governo está focado em combater os cartéis de drogas no Caribe e na América do Sul.
— Vamos garantir que o povo americano esteja seguro e protegido do crime organizado transnacional — disse Stephen Miller, um dos principais assessores de Trump, a repórteres no início deste mês. — A Venezuela é controlada por uma rede narcoterrorista que trafica drogas, armas e pessoas para os Estados Unidos.
E pouco mais de duas horas após o anúncio do indulto de Trump para Hernández, o Secretário de Defesa, Pete Hegseth, publicou nas redes sociais: "Ainda estamos apenas começando a matar narcoterroristas".
Tensão no Caribe
Nos últimos meses, os Estados Unidos têm reforçado sua presença militar no Caribe, parte de uma campanha que, segundo o governo, visa principalmente interromper o fluxo de drogas na região. As forças armadas americanas lançaram quase duas dezenas de ataques desde o início de setembro contra embarcações que, segundo afirmam, transportavam drogas para os EUA, matando mais de 80 pessoas. Mas o governo ainda não apresentou provas detalhadas para essas alegações.
— Hernández foi condenado por conspiração para traficar 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos e recebe um indulto — disse Tommy Vietor, ex-porta-voz do Conselho de Segurança Nacional do governo Barack Obama e atual co-apresentador do podcast liberal "Pod Save America". — Enquanto isso, esses indivíduos desconhecidos, que podem ou não ser pescadores ou traficantes de drogas, nós realmente não sabemos, estão sendo assassinados em alto-mar. Essa política é absurda e flagrantemente ilegal.
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Trump também pressionou intensamente Maduro, o líder autoritário da Venezuela, acusando-o de ser o chefe de uma organização de narcotráfico chamada Cartel de los Soles, embora especialistas em direito penal e narcotráfico da América Latina afirmem que não se trata de uma organização real. Trump também autorizou ações secretas da CIA na Venezuela, e muitos funcionários americanos dizem de maneira reservada que seu objetivo é derrubar Maduro.
Choque entre autoridades
A decisão do presidente de indultar Hernández chocou autoridades em Honduras e nos EUA. Os promotores pediram ao juiz que garantisse que Hernández, de 57 anos, morresse na prisão, citando seu abuso de poder, suas ligações com traficantes violentos e a "destruição insondável" causada pela cocaína. Ele foi condenado a 45 anos de prisão, e sua condenação fez parte de um amplo caso de tráfico de drogas no qual vários ex-traficantes testemunharam como testemunhas de acusação.
A família de Hernández tentou retratar sua condenação como perseguição política, buscando conquistar o apoio de Trump. Mas grande parte da investigação ocorreu durante o primeiro mandato de Trump, e um dos principais investigadores do caso foi Emil Bove III, então promotor do Distrito Sul de Nova York e posteriormente um dos advogados pessoais de Trump. Trump nomeou Bove como um alto funcionário do Departamento de Justiça em seu segundo mandato, antes de indicá-lo para servir como juiz de um tribunal de apelações.
Ricardo Zuniga, ex-secretário adjunto principal do Departamento de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, afirmou ser "bastante evidente" que Hernández esteve envolvido em atividades criminosas durante várias administrações americanas.
— Eu ficaria surpreso se não encontrássemos várias pessoas no meio pró-Trump, incluindo na área da segurança pública, que não estejam chocadas com isso — disse ele.