Queda capilar: IA ajuda a identificar sinais precoces
da condição
A inteligência artificial (IA) começa a chegar ao consultório de tricologia com uma promessa objetiva: tornar a avaliação da queda de cabelo menos subjetiva e mais mensurável. Um estudo recente publicado no Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology avaliou ferramentas de análise capilar com IA e aponta uma mudança importante no setor. Em vez de “adivinhar” o futuro do fio, a tecnologia tem sido usada para transformar sinais iniciais de progressão em dados - com maior precisão e capacidade de comparação ao longo do tempo.
Essa quantidade de café por dia está associado a menor risco de demência; diz novo estudo de Harvard
Anvisa alerta para risco grave no uso de canetas para emagrecer e tratar diabetes
Na prática, plataformas baseadas em algoritmos já conseguem medir parâmetros considerados centrais na avaliação clínica da alopecia (queda de cabelo) como densidade de fios, espessura média, proporção de fios terminais versus vellus (marcador associado à miniaturização) e alterações do couro cabeludo. Ao acompanhar a evolução por imagens e métricas, essas ferramentas ajudam a sinalizar piora ou melhora antes que as mudanças se tornem evidentes no espelho.
De acordo com o tricologista João Gabriel Fernandes, hoje, na prática clínica, o diagnóstico de queda capilar costuma começar com a história do paciente e exame físico do couro cabeludo e fios, avaliando padrão da queda, tempo de evolução, gatilhos recentes e histórico familiar.
A tricoscopia (dermatoscopia do couro cabeludo) é o método mais usado para “confirmar” padrões, como miniaturização, que indica alopecia androgenética; sinais de eflúvio telógeno (uma queda passageira dos fios); doenças inflamatórias do couro cabeludo (algumas cicatriciais) e densidade e variação do diâmetro dos fios.
— Sem IA, a tricoscopia depende muito de experiência clínica e da comparação “visual” entre exames e nem sempre é fácil manter padronização de luz, ângulo e o ponto exato do couro cabeludo em retornos diferentes — explica Fernandes.
O avanço ganha ainda mais espaço quando se conecta ao universo dos wearables. Relógios e sensores biométricos já monitoram sono, estresse, variabilidade da frequência cardíaca, temperatura corporal e outros indicadores que podem influenciar o ciclo capilar. A ideia é identificar padrões fisiológicos que antecedem o afinamento dos fios e, a partir disso, antecipar condutas antes que a queda se intensifique.
— O cabelo é altamente sensível ao que acontece no corpo. Quando conseguimos cruzar dados clínicos e comportamentais, passamos a tratar a queda antes que ela vire um problema visível — explica o médico João Gabriel, tricologista e fundador da Anagrow.
Essa transformação já começa a aparecer no dia a dia do atendimento. Ferramentas de tricoscopia com IA vêm automatizando a leitura do couro cabeludo e traduzindo avaliações tradicionais em parâmetros quantificáveis, como contagem folicular por cm², espessura dos fios e grau de miniaturização — indicadores relevantes para entender tanto o estágio quanto a tendência de progressão do quadro.
Segundo o estudo, parte dessas soluções também produz pontuações e relatórios de acompanhamento, com comparações entre o exame inicial e os retornos seguintes. O objetivo é reduzir variações de interpretação e apoiar decisões clínicas com base em tendência e evolução, e não apenas em percepção.
— Hoje, o paciente chega ao consultório com dados. Isso muda completamente a consulta, porque deixa de ser apenas reativa e passa a ser estratégica — afirma Dr. João Gabriel.
Outra frente em expansão é o uso da IA para personalização de tratamentos e acompanhamento contínuo. Plataformas inteligentes já cruzam informações sobre histórico hormonal, hábitos de vida e resposta a terapias para ajustar condutas ao longo do tempo, reduzindo tentativas e erros. Ao mesmo tempo, o próprio estudo chama atenção para limitações: apesar do potencial de padronização, ainda há lacunas de validação científica e risco de vieses em bases de imagens pouco diversas, o que torna o acompanhamento médico indispensável.
A tendência, portanto, é que a saúde capilar passe a ser cada vez mais monitorada como um processo contínuo, com dados comparáveis ao longo do tempo.
— Estamos caminhando para uma medicina capilar preventiva, em que o objetivo não é apenas recuperar fios, mas evitar que eles se percam — conclui Fernandes.