Esquerda classifica caminhada de Nikolas como 'irresponsável', e deputado diz que raio foi 'incidente natural'
Parlamentares da base do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificaram como "irresponsável" a manifestação organizada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), em Brasília, neste domingo. A queda de um raio durante o ato, que aconteceu em meio à chuva forte, deixou dezenas de apoiadores feridos. O parlamentar, por sua vez, rebateu as críticas dos opositores, afirmando que o ocorrido se tratou somente de "incidente natural". A manifestação marcou o final da caminhada iniciada por Nikolas na segunda-feira passada, em Paracatu (MG), com o objetivo de defender a anistia aos condenados do 8 de janeiro e ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
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O líder do PT na Câmara, deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), afirmou que o ato foi "irresponsável do começo ao fim" e, por isso, "não poderia terminar de outra forma". Na semana passada, junto ao deputado federal Rogério Correia (PT-MG), o petista solicitou à Polícia Rodoviária Federal (PRF) que a caminhada fosse interrompida devido aos riscos à segurança — o que também foi alegado pelo órgão, que enviou um ofício ao gabinete de Nikolas para a imposição de medidas de "mitigação" de danos.
— Estava acontecendo uma tempestade, uma chuva muito forte. Os organizadores têm que ter responsabilidade, tinham que ter dispersado a mobilização — disse Lindbergh, em vídeo publicado nas redes sociais.
Correia definiu os políticos presentes no ato como "inúteis, irresponsáveis e idiotas". O deputado afirmou que os organizadores "chamaram seus fanáticos seguidores para uma tempestade", e defendeu que Nikolas é "o culpado pela tragédia".
Vice-líder do governo, o deputado federal Alencar Santana (PT-SP) também alertou para a falta de atenção com os alertas sobre a previsão do tempo, e criticou o fato do deputado mineiro não ter prestado solidariedade às vítimas em seu discurso.
— Olha só o tamanho da irresponsabilidade. A Defesa Civil e os órgãos meteorológicos avisaram do risco de tempestade, ventania, descarga elétrica e raios. Eles, como são negacionistas, não acreditaram — declarou o parlamentar em vídeo. — Nikolas não foi solidário, humano, não falou uma "palavrinha" de solidariedade.
A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) prestou solidariedade às vítimas atingidas, mas ressaltou que a caminhada foi "liderada de forma completamente irresponsável". Segundo ela, Nikolas "colocou as pessoas em risco" em busca de obter "ganhos políticos e eleitorais", a fim de "escantear" a família Bolsonaro.
"E sei que isso pode parecer implicância. Mas, pelo amor de Deus, os registros publicados pelo próprio deputado indicam que havia crianças ali no meio. Essa é uma responsabilidade que também recai, sim, sobre todos os outros políticos que acompanhavam a caminhada e os próprios manifestantes", escreveu.
Já a deputada federal Fernanda Melchionna (Psol-RS) ironizou as vítimas, publicando que "nem os céus aguentam mais tanta hipocrisia". Ela defendeu que os organizadores e incentivadores do ato devem ser responsabilizados "politicamente e juridicamente", já que ignoraram as condições climáticas.
"Ainda assim, Nikolas e os organizadores mantiveram a caravana golpista, colocando pessoas em perigo por puro cálculo político e irresponsabilidade", disse.
'Incidente', diz Nikolas
Após a manifestação, que ocorreu na Praça do Cruzeiro, Nikolas foi ao Hospital de Base do Distrito Federal para prestar solidariedade às vítimas que precisaram de maior cuidado médico. Em declaração à imprensa, ele negou responsabilidade sobre o ocorrido.
— Incidente natural, não foi por uma irresponsabilidade nossa, não foi por desorganização, não foi por tumulto. Foi literalmente algo que foge do nosso controle, e não poderia deixar de vir aqui prestar nossa solidariedade.
Nas redes sociais, em vídeo publicado na noite deste domingo, Nikolas disse que o ato "tocou a alma e os corações" dos apoiadores, que compareceram mesmo com a "chuva, o frio e os trovões". Ele afirmou que "quase 100 mil pessoas" estiveram na manifestação; o ato final da caminhada, no entanto, reuniu cerca de 18 mil pessoas, apontou mapeamento do Monitor do Debate Político, da USP, em parceria com a ONG More in Common.
Nesta semana, em relação aos riscos mencionados pela PRF durante a caminhada, a equipe de Nikolas disse, em nota enviada para veículos de imprensa, que foram encaminhados ofícios ao órgão e à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A assessoria do parlamentar argumentou que ele decidiu iniciar a caminhada no mesmo dia em que começou o trajeto.
"Ainda assim, no próprio dia de início, a assessoria encaminhou ofícios à PRF e à ANTT, comunicando oficialmente o percurso pela BR-040. Ressalta-se que no primeiro dia o número de pessoas ainda era pequeno por ser o primeiro dia", afirma a nota.