'Terrorista doméstico' ou 'Força do bem'? Morte de enfermeiro por disparos de agentes federais nos EUA alimenta narrativas políticas
Uma pistola Sig Sauer, modelo popular e utilizado por forças de segurança nos EUA, está no centro de uma disputa narrativa entre republicanos e democratas após a morte de um cidadão americano de 37 anos neste sábado, atingido por ao menos 10 tiros disparados por agentes federais. O presidente dos EUA, Donald Trump, e aliados conservadores afirmaram que a arma conduzida por Alex Jeffrey Pretti, um enfermeiro de UTI sem passagens pela polícia, era um claro sinal da intenção do homem em agir contra as agentes da lei que atuam no Estado, enquanto autoridades democratas afirmam que ele tinha autorização para portar uma arma de fogo, e exigem uma investigação sem participação de órgãos federais — em um momento em que gravações do momento dos disparos mostram que, ao menos inicialmente, a vítima não apontou nenhuma arma para os oficiais.
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Pretti morava em um apartamento em Minneapolis, a uma curta distância de carro de onde foi morto. Ele trabalhava como enfermeiro na Unidade de Tratamento Intensivo do hospital do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA. Colegas, familiares e conhecidos ficaram chocados com sua morte, e o descreveram como uma pessoa amigável, profissional dedicado e sem qualquer sinal de violência.
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Ruth Anway, que trabalhou com o enfermeiro, descreveu-o como um colega apaixonado e um amigo de bom coração com um senso de humor apurado. Anway, que também é enfermeira, o conheceu por volta de 2014, quando ele era assistente de pesquisa no hospital, e o incentivou a seguir a carreira.
— Ele realmente floresceu naquele ambiente — disse ela em entrevista por telefone ao New York Times. — Ele queria ser útil, ajudar a humanidade e ter uma carreira que fosse uma força para o bem no mundo.
A imagem formada pelas pessoas próximas à vítima não foi em nenhum aspecto considerada pelas autoridades do governo federal americano ao comentar o caso. Em uma entrevista coletiva na noite deste sábado, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirmou que Petti tinha como objetivo matar policiais, repetindo alegações feitas por outros membros do governo.
Manifestantes protestam contra agentes federais nas proximidades do local onde homem foi morto a tiros em Minneapolis
Roberto Schmidt/AFP
— Parece que este é um caso em que um indivíduo chegou ao local com a intenção de causar o máximo de danos possível a pessoas e matar policiais — disse Noem, culpando autoridades públicas de Minnesota pela violência. — Esse indivíduo, que veio armado e com munição para impedir uma operação policial de agentes federais, cometeu um ato de terrorismo doméstico. Esses são os fatos.
O Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) publicou horas antes uma foto da arma que teria sido apreendida com Pretti. O relato oficial do órgão federal foi de que o homem teria confrontado agentes da Patrulha da Fronteira dos EUA — deslocados para o estado a mando de Trump — armado com a pistola durante uma operação que tinha por alvo um imigrante acusado de violência. O agente, segundo o DHS, efetuou disparos contra Pretti "ao temer pela própria vida".
Em uma coletiva de imprensa durante a tarde, o chefe do Departamento de Polícia de Minneapolis, Brian O'Hara, afirmou que Pretti não tinha ficha criminal e possuía uma licença de uso de armas — Minnesota permite o porte em locais públicos, o que as autoridades apontaram como um indício de que ele não estaria infringindo a lei apenas por portá-la.
Agente federal aponta arma para manifestante em Minneapolis neste sábado
Brandon Bell/Getty Images/AFP
As autoridades democratas reagiram com fúria à morte. O governador Tim Waltz se referiu ao caso como um "ataque atroz", enquanto o deputado Hakeem Jeffries, líder da minoria na Câmara, avançou contra as autoridades federais.
"Agentes mascarados e sem lei do Departamento de Segurança Interna (DHS) assassinaram brutalmente mais um cidadão americano em Minneapolis", disse em um comunicado. "Os extremistas de Donald Trump desencadearam essa carnificina nas ruas da América. Todos eles devem ser responsabilizados criminalmente em toda a extensão da lei".
O senador Chuck Schumer, líder democrata de Nova York, afirmou em comunicado que os senadores do partido votariam para bloquear um pacote bipartidário de gastos que financiaria o Departamento de Segurança Interna e outras partes do governo. O Senado deve analisar a medida, que inclui US$ 10 bilhões para o ICE, antes do prazo final para a paralisação do governo no final de janeiro.
"Os senadores democratas não fornecerão os votos necessários para a aprovação do projeto de lei de dotações orçamentárias se o projeto de financiamento do Departamento de Segurança Interna for incluído", disse ele.
Vídeos analisados pelo jornal americano The New York Times contradizem os relatos. As gravações mostram o homem segurando um celular, e não uma arma, quando os agentes o forçam ao chão antes de dispararem ao menos dez vezes em cinco segundos. O chefe de polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, disse que os investigadores acreditam que ao menos dois agentes dispararam.
Em meio à disputa de versões, corre em paralelo uma disputa por quem ficará a frente da investigação sobre o caso. Quando uma outra cidadã americana, Renee Good, foi morta por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês), agências federais impediram que técnicos e peritos estaduais coletassem provas e evidências. O agente que disparou contra Good terminou não sendo denunciado por nenhum crime.
Na ocasião, a Casa Branca e autoridades ligadas ao governo federal argumentaram que a mulher teria tentado atropelar um agente, enquanto críticos disseram que os disparos foram feitos sem qualquer prerrogativa de legítima defesa. Filmagens a partir de ângulos diferentes não foram suficientes para uma solução conclusiva. (Com NYT)