Blocos LGBTQIA+ conquistam público hétero e lotam ruas no Carnaval paulistano
Os blocos com temática LGBTQIA+ que desfilaram neste sábado em São Paulo atraíram grande público e se consagraram como algumas das principais atrações do carnaval de rua paulistano em 2026. Em todos a diversidade predominou, reunindo foliões heterossexuais ou fora de um padrão que poderia ser imaginado por quem conhecesse o bloco apenas pelo nome. Muitos participantes nem sabiam que tratavam-se de blocos LGBTQIA+.
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O primeiro a arrastar o público nesta tarde, o Minhoqueens, começou a se concentrar por volta do meio dia na esquina das avenidas Ipiranga e São João, no centro da cidade. Quando o cortejo começou, mal se conseguia andar.
Para que o caminhão de som pudesse prosseguir, uma equipe destacada pela organização teve que abrir caminho lentamente, passando cordas pela rua e fazendo gestos de "com licença", para o trio elétrico prosseguir.
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Fundado pela drag queen Mama Darling em 2016, o grupo comemorou seu aniversário de dez anos de folia reunindo outras drags numa comissão de frente que percorreu a avenida Ipiranga em direção à Praça da República.
Carnaval de São Paulo
— O bloco faz dez anos, e eu faço dez anos de carreira de drag — contou Mama, de cima do carro de som. — Comecei com 51 anos, e como se falou, o sonho nunca envelhece. Eu estou aqui realizando meu sonho, com toda essa juventude.
Abrindo o desfile com a cantora Drag Baiana, que trouxe a São Paulo um axé de pegada eletrônica, o Minhoqueens lotou os quarteirões ao seu redor, e seguiu com apresentações de Lia Clark, MC Xuxu e Paola Cadillac.
Com som no talo durante toda a apresentação, o trio das drag queens disputou volume com outro bloco mais modesto, mas não menos animado, que estava a três quarteirões de distância, no largo do Arouche.
Espaço de segurança
O "concorrente" era o Dramas de Sapatão, que, como o nome sugere, foi criado por mulheres lésbicas. Reunindo algumas centenas de pessoas numa área mais fresca, sob as árvores da praça local, a DJ Cardya preparou um repertório concentrado em clássicos do pancadão, mas com espaço para outros gêneros musicais.
O bloco Dramas foi fundado pela influenciadora Dady Veríssimo, que tem canal com mesmo nome nas rede sociais, junto de Pam Santos. A proposta era criar um espaço de carnaval seguro para lésbicas, que não raro são alvo de agressão verbal e física durante os festejos.
No desfile de hoje, era visível que o grupo conquistou um público mais diversificado, roubando foliões desgarrados de outros blocos no Centro.
— O Dramas de Sapatão existe para a gente sambar na cara da sociedade contra todos os preconceitos — afirmou Dady. — Todas são bem vindas, seja lá qual for sua identidade e sexualidade.
O carnaval de rua voltado a grupos LGBTQIA+, que antes era mais de nicho, seguiu de certa forma o caminho já trilhado pela Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo. O evento realizado em junho já há muitos anos atrai grande público heterossexual e se tornou uma das principais datas turísticas da cidade.
Grécia paulistana
Longe do Centro, a avenida Pedro Álvares Cabral, ao lado do Parque do Ibirapuera, abrigou o desfile do Agrada Gregos, que se descreve como o "maior bloco LGBTQIA+ do Brasil".
Com patrocínio de uma marca de cerveja e uma rede social, o bloco trouxe neste ano nomes mais conhecidos no microfone, incluindo Gretchen e Gloria Groove. O Agrada Gregos, criado pelos DJ e sócios Gabriel Ribeiro e Nathália Takenobu, também inspirados na parada, é talvez o grupo mais profissionalizado do carnaval paulista LGBTQIA+ hoje.
O nome do bloco veio de uma brincadeira com fantasias inspiradas na Grécia antiga, muitas delas improvisadas com pedaços de lençol branco e ramos de folha nas orelhas, e não a uma referência da cultura LGBTQIA+. Alguns foliões ainda aparecem no bloco com essas indumentárias.
Com grande parte do público na faixa dos 20 a 30 anos, os foliões de hoje no Ibirapuera também tinham um perfil de identidade sexual e de gênero bastante diversificado.
— A gente nem sabia que o bloco é LGBT. Ele é? Para gente, honestamente, isso nem importa — afirmou o estudante Vicente, de 22 anos, interpelado pelo GLOBO quando estava acompanhado da namorada. Os dois compareceram com um grupo de amigos fantasiados de gregos da antiguidade.